23 de nov de 2010

A benção, Papai


Meu pai está tão velhinho, 
tem a mão branca e comprida, 
parecendo a sua vida, 
longa vida que se esvai.
E eu o lembro quando moço
de uma atlética altivez.
Ah! Tinha força por três!
Você se lembra, papai?
Menino ouvia dizer
que você era um gigante.
Eu ficava radiante
e também me agigantava.
Porque toda madrugada, 
eu quentinho do agasalho, 
ao sair para o trabalho
o gigante me beijava.
Sua grande mão de ferro
parecia leve, leve
naquela carícia breve
que da memória não sai.
Depois... Um beijo em mamãe
e o meu gigante partia.
E a casa toda tremia
com os passos de papai.
Mas agora o seu retrato
muito moço, muito antigo, 
se parece mais comigo
do que mesmo com você.
Você já lembra vovô
e, à medida que envelhece, 
papai, você se parece
com mamãe, não sei por quê.
Você se lembra, papai?
Quando mamãe, de repente, 
caiu de cama, doente, 
era o pai quem cozinhava.
Tão grande e desajeitado
a varrer... Quando eu o via
de avental, papai, eu ria; 
eu ria e mamãe chorava.
Eu quis deixar o ginásio
para ganhar ordenado, 
ajudar meu pai cansado,
mas tal não aconteceu.
Papai disse estas palavras: 
Sou um operário obscuro, 
mas você terá futuro, 
será melhor do que eu.
Eu? Melhor que este velhinho
a quem devo o pão e o estudo?
Que é pobre porque deu tudo
à Família, à Pátria, à Fé?
Meu pai, com todo o diploma, 
com toda a universidade, 
quisera eu ser a metade
daquilo que você é. 
E quero que você saiba
que, entre amigos, conversando, 
meu assunto vai girando
e no seu nome recai.
Da sua força, coragem, 
bondade eu conto uma história.
Todos vêem que a minha glória
é ser filho de meu pai.
"Um dia eu fui tomar banho
no rio que estava cheio. 
Quando a correnteza veio, 
vi a morte aparecer. 
Papai saltou dentro d’água
nadando mais do que um peixe, 
salvou-me e disse: _ Não deixe! 
Não deixe mamãe saber!".
Assim foi meu pai, o forte
que respeitava a fraqueza.
Nunca humilhou a pobreza, 
nunca a riqueza o humilhou.
Estava bem com os homens
e com Deus estava bem.
Nunca fez mal a ninguém
e o que sofreu perdoou.
Perdoa então se lhe falo
Daquilo que não se esquece.
E a minha voz estremece
e há uma lágrima que cai.
Hoje sou eu o gigante
e você é pequenino.
Hoje sou eu que me inclino.
Papai... A bênção, papai

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